3.5.05


Aguardem...
 
Postado às20:39
 
11.2.05


J.


Imagem modelada no Blender, renderizada pelo Yafray e ajustada no Adobe Photoshop.
 
Postado às16:38
 
31.12.04
Não brigue tanto com as pessoas de quem você gosta. Tenha saudades; elas são o que nos aproximam dos cães. Seja forte, já dizia o outro, mas jamais perca a sensibilidade. Tenha boas festas de fim de ano, em nome do pessoal do J-W.
 
Postado às10:06
 
16.12.04
Este é um conto originalmente postado em uma comunidade do Multiply. Nessa comunidade, há outros contos para todos lerem à vontade; só para se cadastrar ou comentar que é preciso ter uma conta no Multiply.

Não Existe, Mas Existe
por Cal

Era uma vez um menino que, cansado de suportar as humilhações que seu pai infligia em sua mãe, perfurou seus próprios olhos e ouvidos. Toda vez que ele suplicava ao pai que impedisse o soco e o pontapé, recebia ele próprio os golpes e então o dobro sua mãe. O velho suando álcool vociferava ameaças de tortura e morte, que desciam como correntezas de ratos semi-degolados sobre sua alma.

Um dia, enquanto a mãe trabalhava e o pai sumia, ele tomou de uma agulha de tricô e em uma só raiva a lançou contra a orelha. Depois de machucar não mais que a região externa do ouvido, e a dor despertar-lhe ainda mais obstinação, resolveu cuidadosamente orientar a agulha ouvido adentro -- para só então a mão tomar impulso e a ponta trespassar o tímpano. Agradeceu ao chão por existir e arrastar, e aos dentes por rangerem.

Não se sabe se foi o sistema nervoso ainda por desenvolver -- tal como cabia a uma criança -- ou se foi a insignificância da dor externa ante à interna; mas os vizinhos daquela tarde tiveram que ignorar apenas um grito, e não quatro. Ao retirar a agulha do ouvido, teve de agir rápido, antes que sua fúria consumisse a si mesma; como o beija-flor que precisa visitar todas flores antes que fechem para a noite.

A agulha ensangüentada passou de mão a outra, e ele viu seu vermelho; e finalmente deslizou uma lágrima do sal que já deitava em seus olhos. Segurou em sua garganta como um soluço o grito de quando repetiu o procedimento no ouvido esquerdo. Não conseguia focar sua consciência o suficiente para saber se ainda ouvia -- a aranha da dor se encaixava em volta de seu crânio, e suas patas, chapinhando em sangue, inham, inham, inham... e vinham, vinham, vinham.

Os olhos foram mais difíceis; não os conseguia manter abertos ainda que, para deixar de enxergar, enxergar uma última vez fosse necessário. Mas se concentrou, e tchfuip. Os palpos se entranharam, e não conseguiu se distinguir da dor que arreganhava seu rosto e cérebro. Por fim desmaiou.

As semanas no hospital foram anestesiadas, acariciadas por febre e alucinações. As infecções, contudo, florescendo em vontade de abandonar o mundo, só partiram após devorar completamente olhos e ouvidos. Ao retornar para casa, durante a convalescência, teve medo -- estava abandonado como nunca na vida, e passou horas tocando e experimentando a textura do lençol, imaginando-se diminuto explorador no topo das efêmeras montanhas de tecido que formava com a ponta dos dedos.

Sentia quando alguém entrava em seu quarto -- a mãe, para lhe trazer comida; o pai, para lhe bradar bêbado --, e o medo prosperando o levou aos cada vez mais confins do lençol. Só foi resgatado por um perfume: a fragrância de algum chá, que emanava dos cabelos recém-lavados de sua namoradinha. Através dos gritos do pai havia aprendido a discernir uma leve vibração dentro de seu crânio, quase coceira no ouvido, que as palavras em voz alta lhe causavam. Mas a menina não parecia estruturar frases, e sim emitir uma comoção irregular de que ele entendeu como pranto.

Passou a receber visitas da menina-namorada, e ambos se tomavam as mãos por horas. Deduzia a jovem moça lhe contar sobre o cotidiano, sobre graças e mundos, gesticulando, afagando, sorrindo, mas, até ela perguntar, não teve coragem de dizer que nada escutava. Um dia, momentos após se despedirem com um beijo no rosto, ela tornou a sentar ao seu lado na cama. Apanhou a mão do menino e, com o dedo a deslizar sobre sua palma, lentamente e em ordem desenhou letras que diziam: "eu te amo".

Depois daquele dia, a menina nunca mais o visitou. Ele perguntou aos seus pais o que havia acontecido, indicando que poderia ler a resposta se lha escrevessem na palma da mão -- mas só iniciaram a utilizar deste artifício para quando seu pai cometeu suicídio alguns meses depois, e já havia desistido de buscar explicações. Ganhou ânimo para explorar a casa, e reconheceu cada cômodo e móvel, metro por milímetro. Em seu abismo sem fósforo, conheceu a sensação de liberdade.

Retomou contato com raros amigos: sabia com quem falava, pela maneira e altura em que apertavam seu braço ou ombro, a rapidez com que recolhiam sua mão, a delicadeza sob a qual tocavam sua palma. Aprendeu a identificar os odores individuais -- não tinha nomes para eles; tinha pessoas e situações --, e com uma pequena bengala já circulava o bairro. Todos conheciam sua história, e quando não sussurravam pelas costas as palavras que ele nunca poderia ouvir, ajudavam o rapaz a atravessar a rua.

Os anos se passaram, e medo em confiança por amargura o distanciou das pessoas. Depois de duas tentativas de suicídio durante a adolescência incompreensível, começou a trabalhar em uma oficina de artesanato -- onde era evitado pela maioria, receosa de sua dicção que se perdia aos poucos e seu humor instante irascível. A alma, tão crespida, ofuscava e trovejava em lenta agonia; suas mãos já velhas haviam perdido a sensibilidade à textura do prazer.

Foi uma ocasião em que sua mãe havia preparado seu prato favorito -- e o paladar era o último motivo que se aproximava de satisfação --, quando sentiu alguém de pé ao seu lado. Deixou o cesto de vime sobre o chão e se levantou em silêncio, esperando que a pessoa lhe pegasse a mão; mas em vez recebeu um abraço apertado, e um perfume feminino alcançou a ponta de seu nariz. Não era o mesmo de antes, de algum chá, mas ele se lembrou do toque e da forma com plenitude: era sua namoradinha.

Na emoção do momento, ela chorava e murmurava algo em seu ouvido, esquecendo de soletrar à mão. Ao retribuir o abraço e lhe beijar o rosto, ele sentiu o salgado das lágrimas, dela ou suas, completamente perdido no mundo. O menino não sabia o que ela estava falando. O menino sabia o que ela estava falando.
 
Postado às13:35
 
20.11.04
A solução do problema pode ser lida ao copiar e colar o seguinte URL na barra de endereços do seu navegador:

http://paginas.terra.com.br/informatica/tnext/Tetragrammaton2.txt

Ao contrário do que pode parecer, a resolução não é complexa; é mera questão de encontrar as afirmações-chaves, e delas se resolve o problema em meio minuto. Então se vocês ainda não tentaram resolver, sugiro que tentem -- ou talvez seja melhor eu começar a postar outros tipos de problema por aqui.
 
Postado às00:21
 
12.11.04
Um ano atrás, eu postei um quebra-cabeça envolvendo anjos -- não era terrivelmente difícil, mas havia um descuido que lhe permitia ser resolvido em aproximadamente dois segundos. Como pedido de desculpas, resolvi reformular completamente o quebra-cabeça, e repostá-lo. Está mais difícil. Atenção: o anjo culpado não é necessariamente o mesmo da versão anterior. Solução a ser disponibilizada em aproximadamente uma semana.

Tetragrammaton
por Cal

Os seres celestiais cristão-judaico-islâmicos que nós conhecemos por anjos se dividem em nove, da mais alta posição à mais baixa: Serafins, Querubins, Tronos, Potestades, Domínios, Virtudes, Principalidades, Arcanjos e Anjos.

Então nós temos dentro de uma sala -- luz apagada, hermeticamente fechada -- seis seres celestiais de hierarquias distintas entre si. Um deles pronuncia o Tetragrammaton e, repentinamente, faz-se a Luz. Cada um tece uma afirmação, querendo saber quem pronunciou o nome proibido de D'us.

Primeiro anjo: "Arcanjo não mencionou ou mencionará Virtude. Virtude não mencionou ou mencionará anjo em posição menor que a minha."

Segundo anjo: "Domínio mencionou ou mencionará Virtude. Virtude mencionou ou mencionará Potestade."

Terceiro anjo: "Potestade disse ou dirá a verdade em sua primeira afirmação. Trono disse ou dirá somente verdades."

Quarto anjo: "Virtude mentiu ou mentirá em sua segunda afirmação. Quando Domínio mente, ele não menciona Arcanjo."

Quinto anjo: "Virtude não pronunciou o Tetragrammaton. Quando Domínio diz a verdade, ele menciona Potestade."

Sexto anjo: "Domínio não pronunciou o Tetragrammaton. Quando Querubim mente, ele pode mencionar Potestade."

Sabendo que (1) anjos nunca mencionam o seu próprio nome, (2) só mencionam anjos que estejam presentes, (3) sempre emitem afirmação verdadeira quando esta contém uma hierarquia que lhe seja superior, (4) sempre emitem uma afirmação falsa quando esta contém uma hierarquia que lhe seja inferior, qual deles pronunciou o Tetragrammaton?
 
Postado às10:20
 
9.11.04
Hoje eu estava folheando um blog escrito por uma moça de trinta anos que trabalha numa locadora de vídeo pornô -- no início, era apenas um emprego temporário, mas depois de meio ano ela começou a disponibilizar por escrito suas divagações, todas elas relacionadas aos seus clientes. Recomendo tranqüilamente o blog dela, para quem lê inglês e estiver interessado em pequenas iluminações acerca da natureza humana, e não somente a masculina.

Um post, porém, chamou a minha atenção o suficiente para que eu tivesse interesse em traduzir e compartilhar -- quem me conhece sabe que eu sou a favor da comunicação eficaz e efetiva entre as pessoas. Pode parecer vulgar, mas é de mentalidade aberta e sem detalhes pessoais sórdidos. (Não muitos, digo.)


Homens e Mulheres e Pornografia
por Ali Davis

Aqui está o que eu aprendi em meu um ano e pouco como balconista de filmes pornôs: homens gostam de pornografia.

Admito que minha amostragem é distorcida, porque muitos homens vêm à nossa loja apenas para pornografia, e têm outras contas em outros lugares, mas quase todos homens que entram eventualmente descem para a seção pornô. E não digo "quase todos" no sentido de 90%, eu digo no sentido de "todos exceto talvez dois, desde que comecei a trabalhar ali."

Esta é uma lição, porque agora eu entendo que praticamente qualquer homem com quem eu saia vai pelo menos ocasionalmente alugar e se divertir com pornografia. Eu não acho que muitas mulheres aceitaram isso completamente. Quando se lê as colunas de aconselhamento, muitas mulheres não conseguem sequer lidar com a idéia de que seus parceiros se masturbam. Meninas, por favor. Relaxem.

O que a seção pornô me ensinou, e acho que muitas mulheres não compreendem, é que pornografia é uma coisa física para os rapazes, e não emocional. Parece ser um escape físico, rápido. É uma maneira de se sentir bem e se certificar de que o encanamento está em ordem, e isso é tudo. Com exceção dos viciados, eu não acho que isso tenha mais significado do que pegar um hambúrguer quando você está com fome, ou se levantar e se esticar depois de um dia inteiro preso no carro.

Muitas mulheres têm ciúmes ou se sentem ameaçadas por pornografia, e nós não deveríamos. O ponto-chave é a diferença que existe entre o seu cachorro -- que é uma mistura de sheltie-terrier que se esconde debaixo da cama quando há trovôes, têm uma paixão por comida de gato, e prefere brincar de cabo-de-guerra a buscar a bolinha -- e a caninidade genérica do "cachorro" no dicionário.

Eu acho que uma mulher num filme pornô, via de regra, é vista como uma mulher genérica, em vez de uma mulher específica. Ela está lá para cumprir sua 'mulheridade' genérica. (E, baseado no número de taxas de rebobinação que eu cobro, uma vez que o espectador alcança o clímax, ela deixa de existir.)

Eu acho que rapazes alugam fitas pornô como uma maneira de ter o prazer do sexo sem a complexidade adicional de ter que atender às necessidades de outra pessoa. O que não significa que ele seja um mau rapaz, ou que não vá cuidar muito bem de você depois; é só que neste exato instante ele quer devorar um hambúrguer.

De certa forma, um rapaz que está alugando um vídeo pornô está educadamente tendo seu sexo egoísta, no seu próprio ritmo, para não te incomodar com isso. E "egoísta" não é uma má coisa aqui. Também é egoísta tomar um banho quente e ler um livro sozinho, mas é importante fazer isso de vez em quando.

Além do mais, se você tivesse a escolha entre o seu rapaz alugar um vídeo e alugar uma pessoa, qual você escolheria?

Agora que eu esclareci esse pequeno desentendimento de uma vez por todas, aqui está o que os homens não entendem sobre pornografia: as mulheres sempre tomam isso pessoalmente¹. Quando uma mulher vê o seu vídeo alugado, ela provavelmente vai concluir que é isso que você quer. O ato sexual em si, o nível de comunicação, o corpo pornô inflado, tudo isso. O mais possível é que ela não veja a mulher da caixa como um conveniente avatar da 'mulheridade' genérica; ela a vê como uma prova tangível de que o dono da tal caixa realmente, verdadeiramente quer é uma loira macilenta de dezenove anos, com enormes peitos falsos e um profundo desejo de levar no traseiro.

¹ [N. do T.: Quando elas não levam para o lado pessoal?]

Este o motivo pelo qual um cavalheiro é muito, muito cuidadoso em não deixar sua pornografia espalhada pela casa.

Comunicação não arranca pedaço, e toda aquela conversa, mas que se dane, não sou uma colunista de aconselhamentos. Eu apenas penso, baseada no que eu vi, que homens e mulheres encaram pornografia muito diferentemente, e não vai machucar a ambas partes levar isso em conta.

Eu acho que é legal quando casais alugam pornografia juntos, e eu estou impressionada com o quanto eles precisaram fazer para chegar lá, ou com o quanto eu espero que eles tenham precisado, de qualquer forma.

Eu sei que está outra vez na moda dizer que homens e mulheres são fundamentalmente diferentes -- Deus, mal espero que esse pêndulo social em específico balance de volta --, mas eu não acho que eles sejam diferentes, ou pelo menos não neste caso. Eu acho que as atitudes em relação à pornografia têm muito a ver com socialização: há uma pressão para sobrepersonalizar sexo de um lado, e para despersonalizá-lo do outro. Como sempre, eu acho que moderação em todas coisas é um bom caminho a se seguir.

Entender isso me ajudou a compreender meus clientes melhor, acho. Saber que o rapaz está assistindo por sexo genérico, e não sexo específico, me facilita entender por que nós temos aquelas edições de quatro horas de cenas de ejaculação².

² [N. do T.: O termo que ela usou é 'come shot', mais conhecido na indústria como 'cumshot'; cenas em que a câmera filma o homem ejaculando sobre a mulher, geralmente em seu rosto.]

Ter em mente que aquilo que os nossos clientes estão alugando é físico, e não emocional ou mental, é o que me impede de me importar demais com o que eles estão alugando -- e de muitas maneiras esse desapego é uma parte essencial do meu trabalho. (Acredite: o rapaz com carteira de motorista de Iowa³ e anel de casamento *não* quer que eu me importe com o fato de ele estar alugando filmes pornôs gays.)

³ [N. do T.: Nos Estados Unidos, é largamente comum a pessoa usar a licença de motorista como documento de identidade. Adicionalmente, a autora trabalha em Illinois; são mais de 500 quilômetros até Iowa.]

Deste modo, eu aprendo e mesma lição muitas e muitas vezes: apenas porque os gostos das pessoas não combinam como meu não significa que elas estejam erradas. Em breve, espero, eu aprendo.
 
Postado às17:16
 
20.10.04
Mariposas não são atraídas pela luz.

Há duas teorias principais. A primeira é a de que, ao longo dos milênios, os insetos noturnos passaram a usar a Lua como ponto de referência para manter seu senso de direção e controlar seu vôo. Quando as mariposas vêem uma lâmpada, elas a confundem com a Lua, e passam a usá-la como ponto de referência -- e uma vez que ela está muito mais próxima do que o satélite, as mariposas precisam curvar o vôo severamente para fixar o mesmo ângulo, o que as leva a voar em espirais cada vez menores, até atingir a lâmpada em cheio, desesperadamente desorientadas.

A segunda teoria envolve um efeito chamado 'faixa de Mach', em que a coroa ao redor de uma fonte de luz se torna mais brilhante do que a própria fonte, devido ao contraste brusco com os arredores não-iluminados. Supondo que as mariposas sempre busquem o ponto mais escuro do céu, para se proteger de predadores, elas partem na direção da luz por confundi-la com o local mais seguro. Isto não acontece com a Lua simplesmente porque o brilho dela é fraco demais para causar uma faixa de Mach.

A ordem dos lepidópteros (do grego 'asa escamada') é formada por borboletas e mariposas: enquanto borboletas, em sua maioria, têm hábitos diurnos e se movimentam por luzes intensas -- reverenciando assim o dia e o Sol --, mariposas têm hábitos noturnos e se movimentam por luzes fracas -- reverenciando assim a noite e a Lua. A mesma Lua que em tantas simbologias é associada a ciclos, inconsciente, depressão, loucura... e mulheres.

Não é difícil guardar a noite como o habitat natural da mulher, quando então as sutilezas e subjetividades do mundo se aguçam, e sonho, fantasia, realidade se entrelaçam. Um estudo científico recente* comprovou que o nível dos estrogênios femininos aumenta ao anoitecer -- o que, dentre outros detalhes, propicia maior elasticidade da pele das mulheres e facilita a produção de certas secreções, permitindo não somente que elas se sintam mais bonitas e sensuais, mas também deixando-as em seu ápice sexual.

(* Cujo link eu perdi. Caso alguém tenha, agradeço se repassar.)

Mas não é somente pela noite que as mulheres se aproximam das mariposas. As larvas destes insetos também são conhecidas por se alimentarem de tecidos, em especial o algodão utilizado em roupas. Por este motivo elas são chamadas de 'traças' em Portugal; e mesmo seu nome em inglês, 'moth', tem origem no hebraico 'despedaçar' -- podendo-se relacionar este simbolismo à negação das vestes e à naturalidade com que as mulheres enxergam o despir-se.

Obviamente, há também as semelhanças não tão lisonjeadoras. Muitas espécies de mariposas nascem sem boca (mas com língua), e portanto não conseguem se alimentar -- dependendo exclusivamente da energia que armazenaram na fase larval --, até que literalmente morrem de fome. Analogamente, as mulheres sofrem de um número de distúrbios relacionados à alimentação; 90% das pessoas afetadas por anorexia são mulheres, por exemplo.

Outro fato interessante é o de que as cerdas que tornam os corpos e as asas aveludadas nas mariposas são as mesmas cerdas que, em contato com a pele humana, causam dermatite aguda. É como se as mariposas avisassem: acaricie uma mulher da maneira errada, e sofra as mais afiadas conseqüências. E não poderíamos deixar de citar que 'mariposa' não raro é metáfora para 'prostituta': seja pelas cores chamativas, seja por sempre haver ao menos uma debaixo dos postes de luz -- mas relegamos esta comparação tipicamente patriarcal.

À parte de todas estas comparações, porém, uma imagem permanece: o da mariposa que rodopia em volta da vela acesa, a seduzir as sombras e evitar a chama apenas para inevitavelmente quedar-se sobre ela -- numa metáfora da vida onde, enquanto dançamos com luz e abismo, inexoravelmente espiralamos na direção da nossa própria morte.
 
Postado às22:30
 
17.10.04
Sempre que mostro alguma música de minha autoria para os amigos, revelo junto que nunca tive aula de prática ou teoria musical. Não digo isso para ofender os músicos profissionais -- pelos quais nutro estima e respeito, em sua maioria --, mas para admitir os tantos erros que cometo. Muito mais ainda que na Literatura, Música segue uma série de rigores para que assim se possa definir.

Então, sem mais delongas, para fazer download, basta clicar aqui com o botão direito e selecionar "Salvar Como".

Dados
Título: Pianesco (Stompawaltz)
Autor: Cal
Data: 17OUT04
Duração: 1:17
Formato: MP3, 64 kbps, 22050 Hz, estéreo
Tamanho: 610 kb
Programado no Modplug Tracker e convertido para MP3 com o driver LAME.
 
Postado às02:59
 
11.10.04
Para ler a resposta (um pouco mais longa do que eu gostaria que fosse) do enigma Em Busca da Última Ficha de Pôquer, copiem e colem o seguinte URL na barra de endereços do seu navegador:

http://paginas.terra.com.br/informatica/tnext/FichaDePoquer.txt

Os mais preguiçosos podem começar a ler a partir da última parte, dividida pela linha pontilhada.
 
Postado às07:07
 
3.10.04
Em Busca da Última Ficha de Pôquer
por Cal

Estavam seis bichos numa sala trancada e esfumaçada, jogando pôquer -- o Avestruz, o Bacilo da Salmonela, o Chacal, o Dinossauro, o Egberto Gismonti, e a Flor --, quando de repente as luzes se apagaram por completo. Ao serem acesas outra vez, encontraram a Flor com dezenas de facadas em seu peito, sangr, ahm, seivando profusamente.

Todos deram um minuto de silêncio, até que a Flor morreu, e então silenciosamente dividiram entre si as fichas de pôquer da recém-partida -- restando apenas uma ficha que, em respeito mútuo (e por não haver como dividir entre os cinco restantes), deixaram no canto da Flor.

Depois de algumas rodadas, as luzes se apagaram novamente e, ao serem recuperadas, viram que a última ficha havia sumido -- todos começaram a berrar e acusar um ao outro, espumando sangue em indignação virulenta. Menos o Bacilo da Salmonela...

... que era o único de citoplasma frio o suficiente para organizar a balbúrdia antes que todos se matassem e ele tivesse que jogar sozinho. Depois de consideravelmente acalmados, o fantasma da Flor ouviu as seguintes afirmações de todos, que estavam sentados em volta da mesa em ordem alfabética.

Avestruz: "O Bacilo da Salmonela não foi o último a tentar pegar a ficha depois que ela se foi!"

Bacilo da Salmonela: "Eu fui o quarto a tentar pegar a ficha depois que ela foi roubada!"

Chacal: "Não foi o Dinossauro!"

Dinossauro: "O Avestruz foi o primeiro a tentar pegar a ficha sem conseguir!"

Egberto Gismonti: "Entre as tentativas mal-sucedidas do primeiro e do Chacal, outros dois tentaram pegar a ficha!"

Fantasma da Flor: "Hihihi."

Sabendo que (1) as afirmações foram organizadas em ordem alfabética na calculista mente vegetal da Flor, e coincidentemente também em ordem cronológica, (2) depois que a ficha sumiu, todos os outros tentaram pegá-la, em ordem circular*, (3) eles têm o hábito de dizer uma mentira logo depois que alguém diz uma verdade e vice-versa, (4) todos estão bêbados demais para pensarem em simplesmente contar as fichas de cada um, (5) os sanduíches acabaram, mas ninguém percebeu, quem pegou a última ficha?

* Isto é, se o Chacal roubou a ficha, todos os outros tentaram pegar a ficha, numa das seguintes ordens possíveis: Dinossauro, Egberto Gismonti, Avestruz, Bacilo da Salmonela ou Bacilo da Salmonela, Avestruz, Egberto Gismonti, Dinossauro.

Resposta a ser postada daqui a aproximadamente uma semana.
 
Postado às16:31
 
30.9.04
Rol de Vitupérios
por Cal

Já há algum tempo, ouço sempre as mesmas ofensas ad infinitum et amplius quam satis -- o último que ouvi e ainda poderia tomar alguma atenção, "seu filho de taxista", obviamente denigre uma profissão legítima e portanto não é apropriada à pessoa honrada. Assim sendo, resolvi criar alguns. Com tom e circunstância, eles denotam uma consideração especial à pessoa ofendida, o que catalisa a injúria além de diminuir as chances de uma réplica adequada.

Cada um deles pode ser apropriadamente convertido para o uso moderno (e.g., "que tu durmas sobre as costelas do leão" para "vai dormir na costela do leão, ô fidamãe!"), conforme necessidades individuais. Sugiro cautela com as que estão marcadas com asteriscos -- são severas, e podem exigir reações incontidas. Sugestões são sempre bem-vindas.

-- Que tu durmas sobre as costelas do leão.

-- Que tu acordes para descobrir-te sonho*.

-- Que a asa da mariposa conforte teus olhos.

-- Que tu ouças mastigarem.

-- Que minha maior mágoa seja teu melhor sonho.

-- Que tuas crianças não chorem*.

-- Que tu respires qual peixe.

-- Que tu aspires o que tens.

-- Que tolos comemorem-te.

-- Que tu corras de olhos cerrados.

-- Que tua estrela apague*.

-- Que tu sacies sede em salmoura.

-- Que teus vícios acolham.

-- Que o rojo da serpente seja-te cama.

-- Que tu sejas teu pior inimigo.
 
Postado às09:32
 
11.9.04

De Córdio Imo, I de III
por Cal

Nunca duas pessoas encontram em praias de manhãs hivernais. Assim atravessei manso, pé desnudo a colher orvalho da grama, alcançando a areia fria e úmida -- desci em direção à maré, mas ante àgu'ápota, prostrei e vomitei até perder os sentidos.

Desperto pelos sais, sentei e chorei até as lágrimas rasgarem feito areia minha face. O feto de vidro; o espelho sem prata. Me confortavam as ondas, seu cântico de crianças partidas. Lavado meu rosto no sangue do mar, à úngula abri meu peito e hausto derrubei meu coração sobre a poeira da praia.

Mal me sentia melhor -- mais nenhum --, mencionou átimo um abutre repulsivo que aproximara em asfixia. Seus trapos opalinos, rasgado por cicatrizes e doenças, ruflavam de maneira inconstante; de olhar lômbrego conquanto cego, chão apontando com o bico fragmentado meu coração, mencionou: "Dá-me de comer esta carne."

Canhonei o sorriso do abismo: "Pássaro abandonado por Deus."

"Em tanto nunca infiel a Ele", estridenciou ríposto, e com língua negra lambeu meu coração, dando morte a umbrar meu túmulo. Sua legítima presença humilhava. Aproximou-se num pulso, e avançou: "Dou-te uma asa esquerda. Adrede a roças sobre um útero, a criança vem sem braços. Mas somente se amas a fêmea."

Sem mover acenei, vai-te. Vai-te! Pássaro desgraçado! Aqui tua malícia, teu cadáver não abate. De asco em boca, encontrei prestes a matar o anjo, rompendo minhas mãos nos estilhaços de seu beijo, seu pouso fisgando meus braços. Seis passos direção, desproveu de reação, observou o coração: "Dá-lhe de comer a parte das memórias pretéritas; os sonhos putrefatos."

Desta vergonha disse eu ao abutre e desta vaidade aquiesceu ele a mim, acompanhando sete noites -- onde ao crepúsculo de cada, mais recortava meu coração com virgem uma concha, rosa cravada. Da noite recém-hebdômada, findei extrair a renúncia, metade do órgão, e lancei ao abutre; deglutiu de pálpebras fechadas, vociferou uma blasfêmia, e voou até nunca mais.

Contrário à lucidez, apanhei uma de suas penas desgadelhadas, toquei a outra metade, e guardei comigo.
 
Postado às16:47
 
29.8.04


1024X768 | 800X600

Kali e a Quimera


...sim, é um quimera de cinco cabeças.
 
Postado às19:20
 
5.8.04
Elliot Smith nasceu alguns anos atrás na cidade de Omaha, em Nebraska, localizado no centro-oeste estadunidense. Durante a infância, em outros estados que nós não conhecemos, aprendeu a tocar piano. Compôs sua primeira peça musical aos dez, quando então ganhou um prêmio num festival de artes local -- algo natural, considerando-se que o lado materno da família sempre esteve envolvido com música, a própria mãe sendo uma cantora.

Aos doze anos, o violão dado de presente pelo pai confirmava uma carreira musical: depois de se formar em Filosofia, passou a tocar numa banda punk, de onde partiu para a carreira solo sem demora.

Foi em 1997, durante o contrato com a segunda gravadora e o terceiro álbum que Gus van Sant pediu permissão para usar a música de Elliot Smith em seu então próximo filme, Good Will Hunting (trazido para o Brasil sob o nome de 'O Bom Rebelde').

No ano seguinte, Elliot Smith foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Música -- apesar de não ter ganhado, foi o suficiente para o desconhecido rapaz de penteado antiquado e nariz de batata ser levado do cenário indie ao sub-mainstream e assinar um contrato com a gravadora da DreamWorks.

Enquanto trabalhava no seu terceiro álbum sob a DreamWorks, em outubro de 2003, Elliot Smith parou de piscar. Devido a algumas provas, e apesar de algumas inconsistências, a polícia declarou que o autor dos golpes de faca no seu peito havia sido ele mesmo, e assim foram declarados vencedores a depressão, o alcoolismo e o vício nos tóxicos que ele enfrentava há anos.

Abaixo segue uma canção dele que tenho escutado desde a última semana. A letra não é particularmente interessante, mas me chamou a atenção da maneira subjetiva como só através da música podemos sentir -- fazendo referência não se sabe se ao passado, presente, ou futuro.

Waltz #2
Elliot Smith

first the mic then a half cigarette
singing Cathy's clown...
that's the man she's married to now
that's the girl that he takes around town
she appears composed, so she is, I suppose
who can really tell...
she shows no emotion at all
stares into space like a dead china doll

I'm never gonna know you now
but I'm gonna love you anyhow

now she's done and they're calling someone
such a familiar name...
I'm so glad that my memory's remote
'cause I'm doing just fine hour to hour, note to note
here it is, the revenge to the tune
you're no good...
you're no good, you're no good, you're no good
can't you tell that it's well understood

I'm never gonna know you now
but I'm gonna love you anyhow

I'm here today and expected to stay on and on and on...
I'm tired...
I'm tired

looking out on the substitute scene
still going strong...
XO, mom
it's okay, it's alright, nothing's wrong
tell Mr. Man with impossible plans
to just leave me alone...
in the place where I make no mistakes
in the place where I have what it takes

I'm never gonna know you now
but I'm gonna love you anyhow
 
Postado às18:31
 
28.7.04

Um Minuto
por Cal


Um minuto

(e todos sentimentos
(estas pequenas carícias
(às quais somos inescapáveis, como uma serpente alada a entrelaçar o rato por entre as nuvens)
da alma, tão pequenas e ardentes como a chama de uma vela esquecida na casa
(o templo de todos passados)
que amanhã estará reduzida a cinzas)
que nele sejam nascidos, todos pensamentos
(estas ociosas brincadeiras do espírito, tão inconseqüentes e perigosas como crianças
(de onde nunca conseguimos verdadeiramente fugir; como um pássaro de uma só asa lançado contra o azul)
correndo às cegas dentro de um labirinto
(o jardim de todos enganos)
feito de papel)
a partir dele criados, argila quintessencial do universo
(o reflexo do reflexo do reflexo do reflexo...)
que é o tempo em sua iteração impiedosa)
é relativo.

Não acham?
 
Postado às01:16
 
16.7.04
Pequeno Drama Familiar em Um Ato
por Cal

Personagens
PAI
MÃE
FILHO

Ato Primeiro e Único

Cena Primeira e Única
[Sala de estar. MÃE sentada na poltrona, expressão severa. PAI de pé em frente ao sofá, visivelmente aflito.]

[PAI, quase suplicante] Talvez seja só um engano. A gente não sabe se ele está passando por algum problema. A gente precisa conversar com ele.

[MÃE, impassível] É justamente conversar que nós vamos fazer.

[PAI] Não vá acusar ele. Vamos tentar esclarecer a situação primeiro.

[MÃE] É pra esclarecer tudo que vamos conversar.

[Porta abre, FILHO entra, livre de preocupações. PAI vai ao seu lado e ajuda a tirar a mochila das costas. FILHO sorri. PAI vai guardar a mochila em algum canto, e volta após breves momentos.]

[MÃE] Vem cá, André.

[FILHO se aproxima, gradativamente apreensivo.]

[MÃE] Um colega seu ligou. Disse que você não foi pra escola hoje.

[FILHO] Eu, eu... tinha um trabalho pra fazer na casa do Simonatto.

[MÃE] Quem é Simonatto?

[PAI] É o Nelsinho, querida.

[MÃE, ao FILHO] Você sabe o que dizem do Nelsinho?

[FILHO] Não. O quê?

[MÃE] Que ele só se finge de afeminado pra pegar as menininhas.

[FILHO, quase condescendente] Mentira.

[MÃE] Dizem que já viram ele comprando uma daquelas revistas masculinas na banca de jornal.

[PAI] Podia ser pra irmã dele...

[MÃE, ao FILHO] Você não minta pra mim, moleque. Essas companhias não são boas. Eu notei que você não tem praticado muito bordado ultimamente.

[FILHO, sussurrando] Bordado é pra menina.

[MÃE, súbita] O que você disse? Repete.

[PAI] Calma, querida...

[MÃE, desafiadora] Repete!

[FILHO, respondendo] Bordado é coisa de menina!

[MÃE se levanta da poltrona com um tapa no rosto do FILHO, que cai no chão. PAI o auxilia a se levantar.]

[MÃE] Pensa que eu não vejo você virando o rosto quando passam dois homens se beijando na televisão?!

[FILHO, com raiva] E daí?!

[PAI] Filho, por que --

[MÃE, interrompendo] Você não sabe que as minhas amigas ficam fazendo piadinhas por causa do seu comportamento? Que você não quer ir com a gente nas Paradas? Que eu preciso ficar inventando desculpas por você ter saído das aulas de dança?

[FILHO] Mãe! Chega! Quer saber de uma coisa? Eu sou preconceituoso!

[PAI] André, não!

[MÃE paralisa por alguns momentos, incrédula, para então dar outro tapa no FILHO, que dá um passo para trás, esfregando o rosto com a mão, entre indignado e suplicante.]

[MÃE] Como você pode ter feito isso com a gente?! Depois de toda educação que a gente deu pra você... Quando foi que isso começou?

[FILHO] Mãe, eu nasci assim.

[MÃE, fora de si] Mentira!

[PAI, à MÃE, à beira das lágrimas] A gente pode colocar ele num psicólogo, querida...

[FILHO] O Nelsinho também é. É verdade que ele só finge pra gente catar as meninas.

[PAI começa a chorar, gemendo baixo.]

[FILHO, conciliador] Mas eu só tento evitar contato com os gays e as lésbicas... Quero ter o direito do meu próprio canto, um canto onde eu posso ser eu mesmo!

[MÃE] Vou te ensinar a ser você mesmo!

[MÃE dá outro tapa no FILHO, que cai ajoelhado.]

[FILHO] Mãe, não faz isso comigo! Eu amo vocês!

[MÃE começa a espancar FILHO. Fecham as cortinas.]

Fim do ato primeiro e único.
 
Postado às13:47
 
15.7.04


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Já faz um tempo desde que eu postei um Wallpaper aqui.

E me desculpem o linguajar, mas esse filme é do caralho!
 
Postado às00:50
 
3.7.04
Segue outra tradução livre que fiz. Friso mais uma vez o fato de eu não gostar de poemas no geral; este do E. E. Cummings obviamente sendo exceção. Na realidade, eu gosto mais do primeiro e do último verso, mas achei justo traduzir o poema inteiro.

A métrica está bastante desengonçada -- tentei consertar um pouco, mas não poderia fazer muita coisa sem alterar radicalmente palavras e significados; novamente, se você lê inglês, recomendo a versão original (cuja métrica não é lá muito melhor, diga-se). Se tiver curiosidade em saber qual poema foi a primeira exceção, é só clicar aqui.


em algum lugar que nunca percorri
de E. E. Cummings

em algum lugar que nunca percorri, prazerosamente além
de qualquer experiência, teus olhos têm seu silêncio:
em teu gesto mais frágil estão coisas que me cercam,
ou que eu não posso tocar por estarem muito próximas

teu olhar mais delicado facilmente me rodeará
embora eu tenha-me fechado como falanges,
abres-me sempre pétala a pétala, qual Primavera abre
(tocando habilmente, secretamente) sua primeira rosa

ou seja teu desejo cerrar-me, eu e minha vida
fecharemos muito belamente, repentinamente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve a cuidadosamente pousar em todo lugar;

nada que nos é dado perceber neste mundo iguala-se
ao poder da tua intensa languidez: cuja textura
impulsiona-me com a cor de suas terras
entregando morte e sempre com cada sopro

(eu não sei o que há em ti, que fecha e abre;
apenas algo em mim compreende que a voz
de teus olhos é mais profunda que todas rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas
 
Postado às03:39
 
30.6.04
Resolvi tirar este conto, escrito há muitos anos por mim, do fundo do baú.

Meu amigo Frederico

Frederico, um passarinho, um periquito verde, nasceu em cativeiro e assim por muito tempo viveu. Seu dono vendeu-o ao menino Zezinho, que vendo o belo pássaro em sua gaiola pendurada à varanda da casa, pela qual passava todos os dias ao voltar da escola, achou-o triste naquela prisão, e tanto fez que o antigo dono do passarinho, cansado do menino, vendeu-lhe o pequenino voador.

O garoto com a gaiola foi correndo para casa, muito feliz da vida por ter gasto todas as suas economias naquela criatura, soltava gritinhos infantis e alegres, dançando todo serelepe pela rua a conversar com Frederico. Este nada entendia da alegria daquela criança.

Em casa, Zezinho afagou o felpudo Tobias, um vira-lata. A mãe nem estranhara o novo amigo do filho, tanto já estava acostumada àquelas amizades.

Correu para o quarto, encontrando Champollion estendido todo dengoso sobre sua cama, era um gato gorducho e traiçoeiro, acariciou-lhe o pêlo, colocando-o porta afora para deixar seu novo amigo mais à vontade.

Abriu a gaiolinha, falando baixinho com o passarinho como se estivesse a conversar com uma criança.

- Pode sair, não tenha medo, amiguinho.

Nem se mexeu.

- Você é livre para voar, sei que sente falta, meu amigo.

Frederico mexia a cabecinha de um lado a outro sem compreender.

Como voar? Ninguém o havia ensinado. E para que voar? Estava bem daquele jeito. Liberdade? O que era aquilo? Não sabia o que era, logo não podia sentir falta do que não conhecia.

- Venha. Vou tirá-lo daí - colocou a mão dentro da gaiola, pegando o pequeno com cuidado e trazendo-o para fora de seu cativeiro.

Esperneava, não queria sair.

Colocou-o sobre a mesa de estudo, o passarinho atordoado olhava assustado para todos os lados, tinha medo daquele mundo gigante, sem grades, queria o seu de volta, a segurança e a certeza de sua gaiola.

- Vamos. Voe amigo - deu um leve empurrãozinho no periquito verde.

Frederico correu e... não voou, pulou para dentro de sua prisão, lá queria ficar.

- Não, Frederico! Não precisa mais morar aí - tirou-o de lá novamente, fechando a portinhola para que ele não voltasse.

Frederico tentou voltar, bicou a portinhola ferozmente para entrar na gaiola, cansado desistiu. E ficou triste, fitava com seus olhinhos de jabuticaba Zezinho, pedindo seu "mundinho" de volta, implorando para que não o abandonasse naquele mundo desconhecido.

- Está feliz? Claro que está, pois é livre!

"Não sei ser livre, não me ensinaram", parecia piar o pequenino.

Se Zezinho conhecesse o meio pelo qual os pássaros expressavam seus sentimentos, veria que Frederico chorava.

- Vou deixar a janela aberta para que possa voar pelos jardins lá fora e voltar quando quiser - depois de cumprir o dito, saiu pela porta, fechando-a e deixando o pobre Frederico sozinho e triste.

Depois de algum tempo, Zezinho entrou com uma tigelinha de alpiste e outra de água, mal entrara no quarto, ainda pôde ver o vulto de Champollion pulando a janela.

 
Postado às19:41
 
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