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Não Existe, Mas Existe
por Cal
Era uma vez um menino que, cansado de suportar as humilhações que seu pai infligia em sua mãe, perfurou seus próprios olhos e ouvidos. Toda vez que ele suplicava ao pai que impedisse o soco e o pontapé, recebia ele próprio os golpes e então o dobro sua mãe. O velho suando álcool vociferava ameaças de tortura e morte, que desciam como correntezas de ratos semi-degolados sobre sua alma.
Um dia, enquanto a mãe trabalhava e o pai sumia, ele tomou de uma agulha de tricô e em uma só raiva a lançou contra a orelha. Depois de machucar não mais que a região externa do ouvido, e a dor despertar-lhe ainda mais obstinação, resolveu cuidadosamente orientar a agulha ouvido adentro -- para só então a mão tomar impulso e a ponta trespassar o tímpano. Agradeceu ao chão por existir e arrastar, e aos dentes por rangerem.
Não se sabe se foi o sistema nervoso ainda por desenvolver -- tal como cabia a uma criança -- ou se foi a insignificância da dor externa ante à interna; mas os vizinhos daquela tarde tiveram que ignorar apenas um grito, e não quatro. Ao retirar a agulha do ouvido, teve de agir rápido, antes que sua fúria consumisse a si mesma; como o beija-flor que precisa visitar todas flores antes que fechem para a noite.
A agulha ensangüentada passou de mão a outra, e ele viu seu vermelho; e finalmente deslizou uma lágrima do sal que já deitava em seus olhos. Segurou em sua garganta como um soluço o grito de quando repetiu o procedimento no ouvido esquerdo. Não conseguia focar sua consciência o suficiente para saber se ainda ouvia -- a aranha da dor se encaixava em volta de seu crânio, e suas patas, chapinhando em sangue, inham, inham, inham... e vinham, vinham, vinham.
Os olhos foram mais difíceis; não os conseguia manter abertos ainda que, para deixar de enxergar, enxergar uma última vez fosse necessário. Mas se concentrou, e tchfuip. Os palpos se entranharam, e não conseguiu se distinguir da dor que arreganhava seu rosto e cérebro. Por fim desmaiou.
As semanas no hospital foram anestesiadas, acariciadas por febre e alucinações. As infecções, contudo, florescendo em vontade de abandonar o mundo, só partiram após devorar completamente olhos e ouvidos. Ao retornar para casa, durante a convalescência, teve medo -- estava abandonado como nunca na vida, e passou horas tocando e experimentando a textura do lençol, imaginando-se diminuto explorador no topo das efêmeras montanhas de tecido que formava com a ponta dos dedos.
Sentia quando alguém entrava em seu quarto -- a mãe, para lhe trazer comida; o pai, para lhe bradar bêbado --, e o medo prosperando o levou aos cada vez mais confins do lençol. Só foi resgatado por um perfume: a fragrância de algum chá, que emanava dos cabelos recém-lavados de sua namoradinha. Através dos gritos do pai havia aprendido a discernir uma leve vibração dentro de seu crânio, quase coceira no ouvido, que as palavras em voz alta lhe causavam. Mas a menina não parecia estruturar frases, e sim emitir uma comoção irregular de que ele entendeu como pranto.
Passou a receber visitas da menina-namorada, e ambos se tomavam as mãos por horas. Deduzia a jovem moça lhe contar sobre o cotidiano, sobre graças e mundos, gesticulando, afagando, sorrindo, mas, até ela perguntar, não teve coragem de dizer que nada escutava. Um dia, momentos após se despedirem com um beijo no rosto, ela tornou a sentar ao seu lado na cama. Apanhou a mão do menino e, com o dedo a deslizar sobre sua palma, lentamente e em ordem desenhou letras que diziam: "eu te amo".
Depois daquele dia, a menina nunca mais o visitou. Ele perguntou aos seus pais o que havia acontecido, indicando que poderia ler a resposta se lha escrevessem na palma da mão -- mas só iniciaram a utilizar deste artifício para quando seu pai cometeu suicídio alguns meses depois, e já havia desistido de buscar explicações. Ganhou ânimo para explorar a casa, e reconheceu cada cômodo e móvel, metro por milímetro. Em seu abismo sem fósforo, conheceu a sensação de liberdade.
Retomou contato com raros amigos: sabia com quem falava, pela maneira e altura em que apertavam seu braço ou ombro, a rapidez com que recolhiam sua mão, a delicadeza sob a qual tocavam sua palma. Aprendeu a identificar os odores individuais -- não tinha nomes para eles; tinha pessoas e situações --, e com uma pequena bengala já circulava o bairro. Todos conheciam sua história, e quando não sussurravam pelas costas as palavras que ele nunca poderia ouvir, ajudavam o rapaz a atravessar a rua.
Os anos se passaram, e medo em confiança por amargura o distanciou das pessoas. Depois de duas tentativas de suicídio durante a adolescência incompreensível, começou a trabalhar em uma oficina de artesanato -- onde era evitado pela maioria, receosa de sua dicção que se perdia aos poucos e seu humor instante irascível. A alma, tão crespida, ofuscava e trovejava em lenta agonia; suas mãos já velhas haviam perdido a sensibilidade à textura do prazer.
Foi uma ocasião em que sua mãe havia preparado seu prato favorito -- e o paladar era o último motivo que se aproximava de satisfação --, quando sentiu alguém de pé ao seu lado. Deixou o cesto de vime sobre o chão e se levantou em silêncio, esperando que a pessoa lhe pegasse a mão; mas em vez recebeu um abraço apertado, e um perfume feminino alcançou a ponta de seu nariz. Não era o mesmo de antes, de algum chá, mas ele se lembrou do toque e da forma com plenitude: era sua namoradinha.
Na emoção do momento, ela chorava e murmurava algo em seu ouvido, esquecendo de soletrar à mão. Ao retribuir o abraço e lhe beijar o rosto, ele sentiu o salgado das lágrimas, dela ou suas, completamente perdido no mundo. O menino não sabia o que ela estava falando. O menino sabia o que ela estava falando.